<p>Governance, Law & Innovation Por que você não vai trabalhar menos com IA O grande receio sobre Inteligência Artificial é a eliminação de empregos. Por enquanto, ela está aumentando a densidade das suas 8 horas de trabalho. by Guilherme Tocci setembro 4, 2026 setembro 4, 2026 Download E-mail Enviar A máxima do “tempo livre” sempre nos acompanhou. As pessoas perseguem o desejo de evitar trabalhos operacionais e repetitivos não só porque são tediosos, mas porque querem, de fato, ter tempo livre. E a inteligência artificial parece, enfim, a candidata perfeita: ela faz a rotina, você fica com o tempo. Interessante em tese. Pouco realista na prática. Pense em um contrato de trabalho. Na sua essência, é uma transação de tempo: “estou comprando as suas horas, quero vê-las sendo usadas para mim”. E é justamente nessa transação que mora a pergunta que originou o artigo: se a IA está fazendo uma parte do seu trabalho, o que você está fazendo com o tempo que resta? Resta mesmo? Sejamos honestos: você começou a trabalhar menos desde que a sua empresa liberou as licenças corporativas de IA? Os dados sugerem que não. Em 2024, o Upwork Research Institute ouviu 2,5 mil pessoas, do c-level ao freelancer, e encontrou uma conta que não fecha: no topo, 96% dos executivos esperam ganho de produtividade com a IA; na ponta, 77% de quem usa a ferramenta no dia a dia responde que a carga de trabalho cresceu. E quase metade admite não saber como entregar o ganho que a liderança espera. Como isso é possível? Um estudo conduzido por pesquisadores de Berkeley, publicado na Harvard Business Review, acompanhou durante oito meses a rotina de uma empresa de tecnologia e descreveu o mecanismo: a IA acelerou tarefas, o que elevou as expectativas de velocidade; a velocidade ampliou o escopo do que cada pessoa assume; e o escopo ampliado expandiu ainda mais a quantidade e a densidade do trabalho. Um ciclo de autorreforço, que os pesquisadores associam diretamente ao aumento do risco de burnout. Ninguém precisou exigir formalmente mais metas no primeiro dia. As pessoas, percebendo que as ferramentas tornavam tudo mais rápido, passaram espontaneamente a assumir mais; e as organizações, percebendo o novo ritmo, o converteram em expectativa. O que começou voluntário virou o novo padrão de velocidade e de cobrança. A IA não esvaziou as 8 horas de trabalho. Ela as adensou. E então aparece um estranhamento que ninguém previu. Durante décadas, fizemos trabalho operacional porque não havia alternativa. No máximo, aprendemos a terceirizar: mudava o crachá, nunca o serviço, e do outro lado sempre havia alguém. A IA rompeu essa constante: a tarefa pode até continuar a mesma, mas não tem mais alguém executando. E o estranhamento não é psicológico; é contratual. Vendemos horas, não resultados. Quando a tecnologia devolve uma hora, é quase que natural o chefe pedir que ela seja preenchida de novo: afinal, foi o tempo que se comprou. Por isso, em vez de repensar se realmente precisamos trabalhar as 8 (ou mais) horas, pensamos em como ocupá-las com mais trabalho. Will Stronge e Kyle Lewis, do think tank britânico Autonomy, sugerem um caminho diferente. No livro Overtime, a provocação é direta: os ganhos da tecnologia poderiam se converter em jornadas menores. O debate é longo e a constatação, curta: hoje, na prática, a conversão está indo para o outro lado. E o mercado jurídico está no epicentro dessa discussão. O estudo Labor Market Impacts of AI, publicado em março de 2026 pela Anthropic, criou uma métrica de “exposição observada”, que separa duas coisas normalmente confundidas: o que os modelos conseguiriam fazer e o que as pessoas de fato pedem que eles façam. A advocacia aparece entre as profissões com maior exposição teórica à automação. No Brasil, levantamento recente sobre o impacto da IA no mercado de trabalho colocou juízes, profissionais de serviços legais e agentes tributários no topo do ranking de exposição, pela natureza documental, normativa e regulatória dessas ...</p>
Por que você não vai trabalhar menos com IA
Governance, Law & Innovation Por que você não vai trabalhar menos com IA O grande receio sobre Inteligência Artificial é a eliminação de empregos. Por enquanto, ela está aumentando a densidade das sua
Imagem: MIT Technology Review Brasil